Discussões Baixada Santista

18/09/2007 23:38

A infra-estrutura das moedas


Ainda faltam dois mil quilômetros para que eu possa tocar a maçaneta da porta da sala. Ela sempre emperra, mas já sinto saudades. Estamos parados no sul da Bahia, na rodovia BR-101. É o primeiro dia no retorno de uma viagem-aventura de carro, visitando parentes no interior do nordeste.

Vinte horas antes almoçara na casa de um tio. Lugar cheio de cores e abraços. Ainda lembro do cheiro da comida, do feijão preparado com o carinho de quem faz tudo com um saboroso sorriso no rosto. A família é grande, mas pareço conhecer todos como se tivesse sido criado junto a eles. A despedida é longa, principalmente pela quase certeza de que um novo encontro levará vários anos. Hora de voltar para casa.

Acordamos de madrugada. No carro, além de mim, estão meus pais e meu único irmão, mais novo. Mesmo não sendo religioso rezo ”o pai nosso”, junto a todos, antes de girar a chave.
De onde venho o céu quase sempre é branco, aqui no nordeste é um azul límpido como num quadro. Uma obra de arte da natureza. As paisagens são maravilhosas, e contam com cachoeiras, pássaros e um ar que acaricia meus pulmões.

Revezo o volante com meu pai. É segunda-feira, e o mosquito preso ao pára-brisa já havia viajado 700 km conosco. O horizonte vai ficando seco. Há buracos em toda parte e, em certos trechos da estrada, sinto-me em Marte, guiando no acostamento da contramão para fugir de um pouso forçado nas crateras da “rodovia”.

Quando a velocidade é reduzida ao passo de uma tartaruga manca, crianças com pás (pela desnutrição aparentam ter, no máximo, oito anos de idade) cobrem os buracos com a terra da beira da estrada e pedem, repetidamente, moedas. Estas são jogadas pelas janelas dos caminhões e carros. Alguns, com ar-condicionado, passam e buzinam como se houvessem animais na pista. Os olhos de uma das crianças brilham na procura por um rosto humano semelhante, por detrás daqueles vidros negros. Toda a inocência delas estava ali, descalça, de mãos calejadas e lágrimas secando na poeira da estrada. Como brilham, foscamente, as moedas no chão.

Almoçamos. O gosto amargo de poder comer logo depois de observar o futuro de nosso país me deixa angustiado. Depois das refeições meu pai fica sonolento. Eu dirijo então.

Uma imponente placa do governo federal (aqui, eu castigo com letras minúsculas) versa sobre o recapeamento do asfalto da BR-101. Piso novo, negro, e o ponteiro do velocímetro corre para os três dígitos.

Repentinamente viro o volante para a esquerda, depois para a direita, e o que vejo é um barranco e não o asfalto. Silêncio. Volto para a esquerda, e o carro só pára ao encontrar uma pequena valeta, no acostamento do sentido contrário.

Descemos do carro, ninguém ferido, mas minha mãe chora até passar mal. Era um buraco no asfalto onde caberia o Rei Momo. Um homem vê tudo – diz morar ali – e nos ajuda. Reparo que logo à frente a vegetação está dobrada, e uma árvore com cicatrizes. Ele então me diz: “Faz umas três semanas, um carro não conseguiu desviar do buraco e estourou os dois pneus da frente. Capotou e só parou na árvore. Quatro pessoas morreram”. A Polícia Rodoviária chega, faz as perguntas de praxe, mas a última em especial me irrita bastante: “Foi o buraco, né?”.

Com o carro consertado continuamos na tarde do dia seguinte. Mais dois dias e estamos em casa.

Finalmente chego à porta da sala e tiro, sorrindo, a chave do bolso, mas este não estava vazio.

Meu rosto esfria. Fecho os olhos e lembro.

Três moedas haviam caído no chão.

enviada por Jonatha Carvalho



12/09/2007 13:12

Análises de podcasts!

Por: Renato Silvestre (58821) e Jonatha Carvalho (58822)


Globoesporte.com – “Direto do Clube”

O globoesporte.com disponibiliza o podcast “Direto do Clube”, que traz edições exclusivas com as notícias dos principais times de futebol de São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Minas Gerais.

Não existe uma periodicidade definida ou histórico dos programas. O site peca ainda, por não ter uma versão do podcast com a síntese das notícias de todos os clubes, uma vez que se trata de um veículo muito abrangente e que atinge diferentes públicos.

O acesso individual aos programas – que não seguem padrão definido quanto à duração – é ideal para o torcedor que só quer saber sobre o seu clube, mas quem pretende ter uma noção geral do que está acontecendo acaba tendo um grande trabalho, pois tem que acessar link por link.

A apresentação se dá de maneira bem informal, no entanto, a duração do programa é questionável e pode levantar suspeita de favorecimentos, uma vez que o podcast de um clube chega a ter 8 minutos enquanto o do outro apenas 4.

Seria interessante ter tamanhos definidos. Parece faltar ou aplicar, também, um padrão editorial para que a forma com que os repórteres se expressam não fosse tão díspar – alguns abusam dos comentários, enquanto outros exageram na formalidade.

Músicas não existem nos programas, e esses se consistem basicamente da participação do repórter e de uma ou duas sonoras com alguém do clube, o que o torne maçante. Na abertura há uma vinheta extremamente enjoativa e pouco criativa. Músicas temáticas e uma vinheta mais elaborada poderiam colaborar com a melhoria da qualidade do podcast.


BBC Brasil – Panorama

O programa é inserido aos sábados e está a dois cliques da home do site da BBC Brasil. Os efeitos sonoros são bem elaborados, proporcionando uma “cara” ao podcast. Não há música ao fundo, apenas composições utilizando os efeitos sonoros já citados. As entrevistas são relevantes no contexto das matérias, não as ilustrando apenas.

A presença de enviados especiais dá credibilidade às notícias e a locução é feita de forma bem informal quando há conversa entre repórter e apresentador. A opinião se separa da matéria apenas através da mudança de entonação na voz do apresentador, o que eventualmente pode confundir o ouvinte.

No título do link no podcast está escrito “Panorama BBC – a atuação militar americana no Iraque”, mas o boletim versa também sobre outro assunto completamente diferente – uma feira de automóveis (Frankfurt / Alemanha). Tal formato na chamada se torna confuso, uma vez que este podcast trata somente de assuntos internacionais, e ainda misturando-os.


Jovem Pan AM - EUA fazem pausa para lembrar vítimas

O arquivo em questão aborda um tema em especial – o sexto aniversário do atentado de 11 de setembro de 2001 – mas sem definição de que é uma matéria ou editorial. O podcast parece ser caseiro. Não há sequer um efeito sonoro no arquivo. O locutor não se apresenta ao público e parece ler a matéria como um discurso político, sem identificar se é um correspondente nos EUA ou não. O assunto merecia pelo menos uma entrevista, esta ausência dá uma sensação de distância do fato, empobrecendo o podcast.

Há também um texto de 11 linhas abaixo do link do arquivo. Muito mais que um resumo. Quem ler tal texto terá poucas informações a mais ao ouvir o arquivo, tornando-o desnecessário.

A opinião do apresentador está no meio da matéria, sem diferenciação alguma como um efeito sonoro ou entonação na voz, o que prejudica ainda mais a absorção do conteúdo como matéria ou editorial.

enviada por Jonatha Carvalho



05/08/2007 20:06

Cansei?

Realizar críticas não muito substanciais gera apenas gritos no vazio.

É notável que problemas comuns neste país – que deseja crescer de forma saudável sendo anêmico – relativos à infra-estrutura, produzam revolta na população. Mas, convenhamos, protestos sob óculos Police não têm muito o que reclamar.Quem utiliza o “transporte público de empresas privadas” sabe do que estou falando. Do que a elite tanto resmunga então?

A política atual do “morde e assopra”, encabeçada por nosso presidente para com a nata da fossa, resulta em alguns efeitos colaterais que, mesmo assim, não alcançam a sola do sapato de banqueiros e empresários.

A elite reclama, talvez, por não ser representada pelo próprio sangue, mesmo que seus interesses estejam sendo respeitados. Ou, quem sabe, alguns bocejos nas exportações prejudicaram as previsões para esse ano: recordes menores, mas não pífios.Não quero dizer que os que comandam a nação vieram do hospital público. Sabemos.

Tais manifestações não têm cunho golpista algum. A mídia começou apoiando esse “cansaço”, mas, felizmente, viu em tempo que não existia suor nas têmporas dos manifestantes.

Óbvio que nossa carga tributária é absurdamente alta, prejudicando um crescimento sustentável. É evidente que o financiamento público de campanha apenas mudará as configurações de corrupção. Mas vá lá falar de reformas.

Onde estava a Tropa de Choque?

enviada por Jonatha Carvalho



17/05/2007 13:13

Mãos unidas, sorrisos nos rostos


São 23H30. Caio na estrada. Um frio que alfineta os ossos me persegue até o amanhecer. Encontro uma centena de ônibus cruzando a rodovia Presidente Dutra, em São Paulo. Dentro deles, com as luzes acesas, vejo todas as idades sorrindo, cantando e se abraçando, numa felicidade rara nos dias de hoje.

Ao chegar à cidade de Aparecida – depois de quase três horas e meia de viagem – há uma multidão de lençóis coloridos cobrindo cada metro quadrado em frente à Basílica. Entre vários destes lençóis estão bandeiras da Bolívia, Argentina, Uruguai, Paraguai, Peru e até uma de Israel.

Não há, em ponto algum, entre os 150 mil romeiros, brigas ou discussões, que são comuns em aglomerações desta envergadura. Dezenas de centenas de militares vindos de unidades como a Brigada de Infantaria Pára-quedista (a elite do Exército brasileiro) patrulham cada canto do evento. Agentes e atiradores da Polícia Federal e do Exército observam de cima de torres, da igreja, e de pontos estratégicos cada passo da multidão.

Entre músicas e hinos religiosos é fácil encontrar, ajoelhados, católicos de mãos unidas, olhos fechados e lágrimas no rosto, que brilham às luzes dos holofotes até o amanhecer.

Helicópteros de autoridades cortam o céu a cada minuto. Crianças apontam para cima e sorriem. Alguns dos fotógrafos começam a ocupar lugares na multidão, enquanto outros profissionais preferem o conforto no alto das muralhas da Basílica.

Nos telões surgem os carros da Polícia Federal. A multidão entra em êxtase. Mesmo tendo feito várias fotografias desde que cheguei, sabia que aquela seria a mais difícil. Não pela distância – que chegou a menos de três metros – mas pelas máquinas que se digladiavam por um espaço no ar. Mais de trinta fotos, aproveitei três. Após a passagem do papa muitos choram, sorrindo.

A missa tem início. Cada palavra do pontíficie recebe atenção como se fosse a última. O silêncio entre o público só é rompido algumas vezes, com pedidos, educados, para que faixas e guarda-sóis - o sol estava a pino – sejam abaixadas, e quem estivesse atrás pudesse enxergar aquele ponto branco e dourado no altar.

A fé, apenas um conceito para alguns, é expressa de tal forma que emociona até Joseph Ratzinger. Mesmo não sendo católico, foi impossível para o repórter que vos escreve ficar indiferente a este acontecimento. Talvez não pela figura do religioso ali presente, mas pela esperança e alegria que para muitos ele representa.

Os ônibus saem da cidade. Músicas e sorrisos voltam para casa.



Veja as fotos em http://www.fotolog.ig.com.br/jonathacarvalho
enviada por Jonatha Carvalho



25/03/2007 00:22

Fim da prensa

Grandes questões giram em torno do futuro do jornalismo impresso, pois há os que defendam que o grande “boom” da internet em parceria com um dinamismo cada vez mais marcante do meio ocasionará uma queda do consumo do jornal em papel. No entanto, não apenas o jornalismo tradicional impresso, como também a própria figura do jornalista vem sendo “ameaçada” pela nova onda dos surfistas da grande rede.
O chamado jornalismo colaborativo surge como um meio de se propagar informações, nem sempre checadas e ou apuradas, e expandir o campo de alcance desse meio de comunicação, fazendo com que não apenas jornalistas, mas todo o público da internet, sejam potenciais agentes geradores de informação, o que por outro lado obriga os veículos, tidos como grandes empresas jornalísticas a se responsabilizar - ainda que queiram se eximir deste pesado fardo - pelos erros de pessoas despreparadas ou simplesmente mal intencionadas.
Já estão no ar sites com conteúdo inteiramente produzido pelos internautas. Isso pode até ser bom, pois traz à internet algo nunca antes visto em outros meios, tendo em vista que não é apenas uma participação pura e simples, onde você diz sim ou não e escolhe um final - como no programa “Você decide”, exibido durante anos na Rede Globo. Agora chegou a hora das pessoas comuns, mesmo que ainda em nossos dias o privilégio do uso deste meio seja apenas para poucos.
O que também está em jogo é o atual controle da informação proveniente do oligopólio mundial, que baseia suas publicações e opiniões através de diferentes agências de notícias, ao menos em teoria, esse tipo de conteúdo é nivelado por baixo, para atender um clinte (leitor) mundial e sem face. Mas a propagação de notícias de internautas, tida, por vezes, como desenfreada, traz à tona a questão da utilidade da notícia puramente informativa. Sem significado ao leitor, uma quantidade absurda de matérias se perde na ilusão do “estar informado”, que sem um contexto e o hábito da leitura do internauta, se torna apenas pão e circo para a população.
O jornalismo e o papel social do jornalista, no entanto, não deverá ser substituído, ainda que possa ser interesse de grandes corporações ou de políticos que sonham com o dia que a imprensa e a sua pseudo-liberdade acabe. A caçada ao jornalismo ou o seu pedido de extinção é uma luta já vivida durante muitos anos.
Primeiro não acreditavam que essa poderia ser uma profissão digna, depois foi a caça aos direitos da imprensa livre, movida por regimes autoritários. Agora, a ameaça à profissão surge de pessoas comuns que são consumidoras do produto jornalístico, e que também se baseiam nos jornalistas para poderem produzir seu conteúdo, logo este temor quanto à queda da credibilidade da imprensa não se sustenta, pois a criatura só pode superar o criador quando conhece a fundo todas as suas vertentes, meandros e particularidades. O que de fato não ocorre.


enviada por Jonatha Carvalho



11/03/2007 15:12




Mais fotografias em http://fotolog.ig.com.br/jonathacarvalho
enviada por Jonatha Carvalho



11/03/2007 14:55

8 de março

Que calor terrível! Dois ônibus, um deles sem ar-condicionado, escolho o calor. Antes de subir a serra fotografo, do ônibus, trabalhadores trocando trechos de um gasoduto, em Cubatão. O sol parece não os incomodar, mas eu sinto como se estivesse derretendo. Chegamos a São Paulo, mais de 30Cº. Mulheres, estudantes, sindicalistas, trabalhadores do campo e da cidade, repórteres, câmeras, Polícia. Rostos pintados. Metade da via em um sentido já está ocupada.
Um repórter sem identificação me ajuda na subida em um dos carros de som, agradeço. A multidão, suada, aglomera-se, chamando a atenção de quem passasse por ali. Alguns buzinam, outros xingam, mas o sorriso permanece e a alegria dita os encontros entre velhos conhecidos, jovens ou não.
A marcha começa, são 15h, faixas com dizeres do tipo “Fora Bush! Persona non grata”, “Não à guerra!”, e “Mulheres diferentes, mas não desiguais” tomam conta de uma das principais avenidas de São Paulo: a Paulista.
É o oitavo dia do mês de março, Dia Internacional da Mulher, que coincide com a chegada de uma autoridade não tão ilustre quanto seu cargo: o presidente dos Estados Unidos, George Walker Bush. Duas manifestações, uma contra a visita de Bush filho, e outra em favor da igualdade dos direitos da mulher unem mais de 15 mil rostos.
Um dos sentidos da avenida está tomado, por quilômetros se vêem braços erguidos e fotógrafos correndo de um lado para o outro, com seus apetrechos e óculos Ray Ban.
A manifestação chega ao Museu de Artes de São Paulo, o Masp, um prédio sustentado por apenas quatro colunas vermelhas, mas de dimensões únicas, retangular em todos os seus ângulos. A Polícia está nervosa, muita gente, e poucos uniformes cinzas ficam parados por muito tempo. O asfalto brilha, e vendedores passam oferecendo água ao preço de R$ 2, o dobro de quando cheguei. A Tropa de Choque é acionada. Punks de lenços na face tomam, deitados, o outro sentido da via. Os policiais arrancam do peito a identificação de seus nomes e patentes, sacam seus porretes e desferem golpes no estômago e no peito de quem estivesse no caminho, sem distinção alguma. Pedras voam como morteiros, acertando, com uma mira invejável, a cabeça dos PMs. O ânimo dos dois lados está exaltado demais para conversas. A Polícia sequer faz uso de megafones e a confusão sai do controle em ambos os lados, com balas de borracha atravessando a manifestação e bombas de efeito moral e de gás lacrimogêneo sendo lançadas no meio da multidão e não à frente, o que claramente só causa mais correria e ódio na população. Violência em excesso gerando violência, ali, na minha frente, demonstração clara da falta de táticas das tropas da Polícia e do Choque, que estão sendo reforçadas a cada minuto, com a chegada, muitas vezes com desnecessários “cavalos-de-pau”, de outros carros da PM, somando centenas de policiais. Gritos e lágrimas, nem sempre ligadas ao efeito do gás emocionam até repórteres, de coração imparcial, pra quê tudo isso?
Os medievais confrontos duram quase uma hora, mas não há manifestantes indo embora, apenas recuando quando atingidos. O fim se dá às 18h50, com o último discurso em um dos carros de som. 20 feridos, o suor escorre pelas têmporas e um zumbido nos ouvidos me acompanha até o sono, oito horas depois.

Dia seguinte.
“Você viu aquele bando de vagabundos na Paulista? Falta do que fazer!” dizia um motorista, o passageiro concorda “Isso não adianta nada, só atrapalha os outros, esse país não tem mais jeito mesmo...”. A imprensa publicou apenas números. É só isso mesmo? Será que foi tudo inútil?

enviada por Jonatha Carvalho






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